quinta-feira, 12 de março de 2009

VOCÊ, MAR.


Morrer de amor ao pé da tua boca
Desfalecer à pele do sorriso
Sufocar de prazer com o teu corpo
Trocar tudo por ti se for preciso


[Maria Teresa Horta]

DISTÂNCIA


Eu olho você grande e distante
e da sua grandeza me comovo
e da sua distância me revolto.
Olho de novo.
Procuro reter em minhas mãos sua figura
mas ela gesticula, oscila e cresce
e numa inconstância distraída
no instante exato
por trás da vida desaparece.
Um desacato.
Do meu desaponto eu me levanto
pra levar embora outro desencanto
mas você me divisa e então me chama.
Me aguarda, reclama e me convida
e minha vida nessa ansiedade por fim entrego.
E nesse amor feito de espuma colorida
nós flutuamos: você borbulha, eu escorrego,
ensaboados, você explode, eu me desintegro.

[Flora Figueiredo]

PRISIONEIRA


Você me acorda no meio da noite
e eu que navegava tão distante
cravada a proa em espumas
desfraldados os sonhos
afloro de repente entre as paradas ondas dos lençóis
a boca ainda salgada mas já amarga
molhada a crina
encharcados os pêlos
na maresia que do meu corpo escorre.
Cravam-se ao fundo os dedos do desejo.
A correnteza arrasta.
Só quando o primeiro sopro escapar
entre os lábios da manhã
levantarei âncora.
Mas será tarde demais.
O sol nascente terá trancado o porto
e estarei prisioneira da vigília.

[Marina Colasanti]

quarta-feira, 11 de março de 2009

ALMA



E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras liquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

[Hilda Hilst]

CEREJAS


Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.

E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba

e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...

[Renata Pallottini]

CONFISSÃO


eu minto, confesso
me faço de boba, verdade
escondo a idade, me calo,
me sinto tão mal, um inferno
represento um papel, principal
sou mesmo uma atriz, infeliz
quem diz que eu não quero, eu consigo
viver por um triz, enlouqueço
te esqueço e te mato, te amo
atrás de um muro, qualquer
outro dia amanheço, de novo
e falo bobagens, pudera
não sou tão sensata, avisei
sem nada de mais, me despeço

[Martha Medeiros]

MANHÃ


O corpo pede um drink:
pode ser martini
Na manhã que chega,
estranha e solitária,
sou mulher também.
Mas, ontem à noite,
o corpo pediu um toque
da língua, nos gelos
que estavam
perdidos no copo.

[Antoniella Devanier]

INVENÇÃO


DEPONHO
SUPONHO E DESCREVO
A PULSO
SUBINDO PELA FÍMBRIA
DO DESPIDO
PORQUE NADA É VERDADE
SE EU INVENTO
O AVESSO DAQUILO QUE É VESTIDO

[MARIA TERESA HORTA]

terça-feira, 10 de março de 2009

VESTIDO DE AMANTE


No armário do meu quarto escondo de tempo e traça meu vestido estampado em fundo preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas à ponta de longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito, meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem a minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.

[Adélia Prado]

DESATINO



Eu não sabia o que fazer, e abri a blusa.
Mais tarde eu ia dizer: foi sem pensar.
Ele me achou desnorteada, confusa,
Como acharia qualquer mulher que abre a blusa
E faz tudo que eu fiz só pra agradar.

Minha cabeça não era mesmo muito certa.
Mulher esperta eu nunca fui, mas deveria
Saber me colocar no meu lugar.
Não adiantava nada, eu era assim desatinada,
O tipo de mulher que faz as coisas sem pensar...

Você agora, me ouvindo contar essas histórias,
Talvez me ache também um pouco confusa.
E eu, que faço tudo pra agradar,
Já sem saber o que fazer, abro minha blusa,
Como faria qualquer mulher confusa em meu lugar!

[Bruna Lombardi]

domingo, 8 de março de 2009

QUANDO?


... e então quando vens?
para ver o sol nascer doce e morrer salgado de tanto mar?
quando vens mergulhar nas
lembranças do tempo...
esse tempo que insiste em passar?
quando vens trazer um pouco do mundo
aqui onde nem as horas passam?
Aqui os dias se estendem dourados
sob o azul claro do céu...
... as ondas batem calmas,
quebrando o silêncio que é só meu...
em tudo é fácil de ver uma poesia...
[em tudo há poesia]
[em tudo brota poesia]

hoje o mar não quis revelar-me nada
enquanto pensei em ti e entardecia...
como despertas essa saudade
[e todos os meus segredos?]
como me fazes falta mesmo
que só para estar ao meu
lado em silêncio?
que dom é esse, meu poeta,
capaz de acordar milagres...
tenho saudades, tenho vontades...
{então te espero}

[Cáh Morandi]

PENSAMENTOS



Vou contar ao mar do meu amor.
Vou dizer ao vento
O quanto em você penso
E vou pedir
Que te diga da minha saudade.

Vou pedir ainda,
Que ele toque em você
Que te acaricie
Com seus dedos invisíveis
Pra me trazer após
Um pouco do seu perfume.

E quando ele voltar,
Vou fechar os olhos
Pra imaginar
Que você está aqui.

Vou esperar depois
Que as ondas me contem de você,
Que me digam seus dias
E a expressão dos seus olhos...
E se em algum momento
Pensa um pouquinho em mim...

Ai vou me sentar nas pedras,
Feito adolescente,
Olhos fixos no horizonte,
Peito cerrado,
Cheio de esperança
De ver você chegar.

[Letícia Thompson]

CEGUEIRA


Você está tão perto
... te sinto tão longe
Nem mãos de corpo
Nem mãos de alma
Te alcançam...

É como ter um mar inteiro para beber
Com os olhos.

[Cáh Morandi ]

sábado, 7 de março de 2009

PALAVRAS


Lancem-me ao mar
às ondas do vento
para que eu possa tocar
as profundezas do tempo

joguem meus sonhos no ar
às estrelas do momento
para que eu possa ficar
preso nas ondas do vento

e se o ouvirem soprar
em noites de luar sem fim
podem colher junto ao mar
poemas nascidos de mim

palavras que são de olhar
de ver tudo o que contemplo
palavras que são de amar
o mar, as ondas, o vento...

[Jorge@ntunes]

RENDO-ME


Rendo-me ao improvável navegante
de minhas águas
marés ignoradas.
Rendo-me
ao que nunca me abraça
ao barco que passa além
e seus olhos de não ver ressacas e remanços
areia de palavras, decorada
que espalho, de tempos em tempos.
Rendo-me ao vento inocente dos dias
que apaga o sonho, ao passar
e leva o aroma dos beijos
e leva quem amava para outro e longe mar.
Rendo-me à ardente constância das águas
presas nestes meus olhos
e à abstinência dos sentidos
nestes frios lençóis, perdidos.
Rendo-me
e me sufocam os bordados
e as flores tristes
à espera do navegante para sempre longe
destas rendas que, de amor,
teci.

[Saramar]

SAUDADE


Sempre vai ser meu mar... grande, perfeito.
Sua presença, forte em mim...
Sentir seu gosto, ficar no seu abraço.
De tudo, tirar o pouco, muito para mim.
Nesses momentos em que penso em você, me bate a saudade, uma vontade de ficar perto.
Te espero todo dia.

sexta-feira, 6 de março de 2009

DESEJO


Meu corpo, teu porto
Meu suspiro, te chama
Meu gemido, te arrasta pra mim...
Em direção ao meu fogo
Ao meu desejo intenso

Faz a tempestade que mereço
Lambe a espuma que guardo e te ofereço
Tuas ondas me cobrem e desfaleço
Traz-me à tona pro recomeço

Deixo adormecer meu desejo
Nesse silêncio cansado
Que me envolve
Nesse suspirar calado
Que me comove
E me incendeia a carne

Mas acordo cheia de beijos
Teu suor me cobrindo
Teu mar me invadindo
Me solto dos remos
Meu porto, um só corpo, seremos

(Paty Padilha e Bernadette]

MORADA


Morar com você
Na Ilha do Corvo
Pequena ilha, cheia de sol
Ruas estreitas, nossa casa como pano de fundo o mar
No meio do Atlântico
Acordar, adormecer
E perto de você.
Olhares, tato, doces
E amor demais...

VOCÊ EM MIM, MAR



Ele quis juntar o mar que continha
Retesado, encerrado em seu corpo
Com o campo fértil
Que meu corpo floria

E sempre ia a procura
E encontrava o girassol girando girando girando
Esperando
As ondas para flutuar

No dourar dourava-me
Transbordava cheiro de mangue
No aroma das rosas
Em brasa
[Regina Romeiro]

VEM...


"VEM, ENTÃO, E ME LEVA DE VOLTA PARA O LADO DE LÁ DO OCEANO DE ONDE VIEMOS OS DOIS."
[CAIO F. ABREU]

CHEIRO A MAR


…que quero que seja submerso.
Envolto num manto doce de momentos, memórias, silêncios e com sabor a sal e cheiro a mar.
Dias calmos e tranquilos, cheios de sorrisos cúmplices e pés frios da areia ainda gelada.
Apetece-me descansar, deitar-me a dez metros do mar, onde as ondas se confundem com o surrurro dos poemas.

[Madalena Palma]

quinta-feira, 5 de março de 2009

SINTO MAR


FECHO OS OLHOS
E VEJO MAR, E SINTO MAR...
SALGADO-DOCE
ASSUSTADORA ATRAÇÃO
QUE NOS AFOGA NUM SORRISO

SENDO PULSANTE VIDA

PROFUNDA TRANSPARÊNCIA
REFLEXO DO CÉU
FRÊMITO
ESCURO-SORRISO

PRINCÍPIO E FIM

CALMARIA E ABISMO
FONTE DO SONHO
NOITE-MANHÃ!

[Maria Petronilho]

DESTINO


Dizem que és traiçoeiro,
À noite tens um quê esquisito.
Acesso ao teu todo é interdito,
Mar, gigante de ares faceiros.

Eu te amo meu belo selvagem.
Sincera é, por ti, a paixão,
Como por Cristo é a devoção,
Nos olhos d’alma tenho tua imagem.

No teu seio barcos são arvoredos,
Abrigas personagens rudes
E vidas que ganham altitudes.
És um poço de segredos.

[...]
Amas os cabelos e meus seios,
Jardim onde depositas flores
De conchas que causam rubores
Com o atrevimento dos meneios

Jogando-me na areia deitada
Olhando a orla misteriosa
A quem me curvo respeitosa.
Ó dia, ó hora abençoada,

Tens um manto de talhe fino
Verde-esmeralda de cetim,
Falando de ti dou tudo de mim,
Amar-te é o meu destino.

[Maria Hilda de J. Alão]

PORTAS PARA O MAR


Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva de uma estrada

[...]
alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar

[António José Forte]




RECONHEÇO-ME

Pela ponte de espuma
Chegaste.
Ignoro o além da praia,
O mundo que te gerou;
Se surgiste do seio do dia
Ou do grito da noite.
Reconheço-me apenas
No coral das unhas e da boca,
Nos olhos líquidos,
Na trança de sargaço.
Sei que flutuas em mim,
E teu corpo veste-se
De vozes;
No entanto,
Regressarás ao mundo de areias brancas
E meu murmúrio será sal,
Brilhando em teus cabelos.

[Paulo Bomfim]


quarta-feira, 4 de março de 2009

ANOITEÇO..MAR

No mar profundo
fecundo o monte
de fronte.
No espaço
abraço
enlaço
alado.
No mar encerro tudo,
lembrando o meu passado.
[...]
O mar
amar
sonhar
sonhar
o mar...
Ah! mar!...
Amado.
A noite vai chegando
o dia vai morrendo...
Eu me faço Sol
vou me escondendo.
Dormir
no infinitivo
de um amor
passado.
[Luiz Ledo Motta Mello]

terça-feira, 3 de março de 2009

PERGUNTAS

Minhas palavras são a metade de um diálogo
obscuro continuando através de séculos impossíveis.
Agora compreendo o sentido e a ressonância
que também trazes de tão longe em tua voz.
Nossas perguntas e respostas se reconhecem.
Como os olhos dentro dos espelhos.
Olhos que choraram.
Conversamos dos dois extremos da noite,
como de praias opostas.
Mas com uma voz que não se importa…
E um mar de estrelas se balança entre o meu pensamento e o teu.
Mas um mar sem viagens.

Cecília Meireles

UM DIA...


Um dia prometo voltar ao fundo do mar
Apenas para lá deixar escrita a palavra
Que descobrirá o tesouro mais bem guardado
Aquele a que atribuo maior valor
Aí nascer-me-ão as asas
Que me levarão ao teu encontro
Esse será o dia em que acordar
E permanecerei com os olhos fechados
Deixando-me ficar no leito
Onde não temo amar-te plenamente

[Madalena Palma]

COISAS




Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.

[Nuno Júdice]

segunda-feira, 2 de março de 2009

TUDO DE NOVO



"Não importa os corpos que tive, as faces que vesti, a cor da minha pele. Não importa os séculos que vivi, as noites em que não dormi, a saudade que senti. Nada importa quando teu corpo aporta o meu. Nada mais importa quando a luz da tua alma faz da minha noite dia, quando o brilho azul dos teus olhos pinta o meu céu negro.

Amar com a pureza cristalina da água, sentir com a suavidade da seda, é mais que tudo aquilo que possa ter sido, e, se até este instante não sabia interpretar o sentir, daqui por diante não saberei mais o que é não amar assim. Recebo o teu abraço, sinto cada pedaço da tua pele colar-se a mim, as essências de ti penetram-me os sentidos e o meu corpo estremece ao receber-te em mim.

Quero saber, o perfume da tua boca, o sabor da tua pele, o toque do teu olhar em mim. Quero sentir a emoção do teu abraço, apertado, das palavras que em silêncio nos dizemos. Quero provar o teu corpo, vibrar em ti, e olhar o gosto do prazer transbordar de teu olhar. Afinal a alma conduz-nos e a minha alma leva-me a ti. Afinal o amor comanda-nos e o meu coração palpita em teu peito.

Afinal... Amo-te!"
[http://noite.do.sapo.pt]

E tudo de novo...